Taprógoras de Mileto

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O Diário de um sofista


Epílogo: Quando uma explicação é dada, as despedidas devidas e um ciclo fechado.



Enfim, chegou o momento.

Há muito tempo eu o ensaio, há muito tempo eu luto contra sua eventualidade. Mas, como sempre em nosso mundo crônida, o momento é inexorável. Resta-nos portanto, nos despedir e partir para um novo ciclo.

Antes, porém, uma explicação. Uma explicação que devo desde o início deste blog e que sempre esteve presente, apesar de nunca antes expressada. Diz respeito à diferença entre Estórias e Histórias. Estas últimas, reféns do acontecimento, buscam expressar aquilo que "foi verdade uma vez". As estórias, por sua vez, são livres do julgo do acontecimento, e podem assim expressar a "verdade para sempre". E, assim como essa sua "verdade", possuem um caráter fugidio que não permite a sua fixação em um ponto espaço-temporal (pelo menos não por muito tempo). Mesmo porque, algo que "sempre é verdade" também é algo que "nunca foi verdade". Mesmo assim, não há como concluir que a estória seria, portanto, "inerente ao ser humano". Ora, não há como saber o quê veio do quê. Assim, todas essas questões tornam-se triviais.

 

"We are such stuff as dreams are made on; and our little life is rounded with a sleep."

 

Bom, já fazem mais de 4 anos que abri este blog. Durante todo esse tempo, ele esteve do meu lado. Desde uma vitrine para minha eterna vaidade, um escape para minhas opiniões caladas no mundo não-virtual, um conselheiro para o meu "eu futuro", até mesmo um interlocutor inesperado. Nele escrevi coisas que eu me envergonho de ter escrito e também os textos mais belos que já escrevi e li. Gosto de pensar que não os produzi sozinho. De novo, não há como saber quem veio de quem. A questão é trivial.

Mas a verdade é que todo ciclo tem seu fim (meio esquisito isso, não?) e devo lhe dar o devido adeus, caro blog.

Na verdade, apenas uma aposentadoria, pois não quero deletá-lo (ainda gosto de rever os meus posts) e espero mantê-lo até expirar minha conta no uol. Aos eventuais leitores (incluindo eu mesmo), o meu obrigado, minhas sinceras desculpas e, é claro, as devidas despedidas. Sei que devia falar mais coisas, sei que ficarei devendo muita coisa que não foi expressa, mas não sou bom de despedidas. Espero que possam perdoar a simplicidade.

O diário termina aqui.

 

E começa a volta para a casa.



Escrito por Taprógoras às 05h08
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É só de papel! – Para uma nova (ou não tão nova) teologia



Outro dia um colega de trabalho trouxe sua filhinha de três anos para o serviço. Em algum momento, já entediada pelo mundo dos adultos e como uma boa criança de três anos de idade, ela se posicionou (naquela posição que você só sabe fazer quando criança), estendeu o beicinho de baixo e pôs-se a chorar.

 

Apiedado de seu tédio (mas nem um pouco incomodado com o choro. Sinceramente, as crianças não me incomodam nem um pouco, pelo contrário), e temendo uma possível bronca do seu pai (pois me incomodam broncas adultas), acabei bolando algo com o pouco de material que me era disponível. Algumas dobraduras em um papel e acabei fazendo um passarinho de papel como há muito tempo eu não fazia (não me perguntem como me lembrei) e o entreguei à menininha. Seus olhos brilharam, o sorriso apareceu e ela saiu pulando com seu novo “passainho”. O pai me olhou com olhos agradecidos e voltamos ao trabalho.

 

Algum tempo depois, me deparo novamente com os dois olhinhos brilhantes a me encarar. Não foram necessárias palavras (com as crianças elas nunca são) para me fazer entender que ela queria um novo “passainho”.

 

- Onde está o outro? – Perguntei meio sem jeito, pois estava apenas curioso.

 

- “Cabô”. – Respondeu, lacônica como exige sua idade. E me mostrou um pequeno bolinho de papel amassado e rasgado em sua mãozinha.

 

- Uai, mas já “cabô”? – Indaguei só para manter aquela conversação.

 

- “É só tchi papel”. – Explicou-me naquela condescendência típica das crianças ao se dirigirem aos adultos idiotas que parecem nunca entender as coisas mais básicas (Como me entristece ter de me reconhecer nesse grupo).

 

- Realmente, é só de papel... – Disse, mais para mim do que para ela...

 

 

“Deixai vir a mim os pequeninos, e não os embaraçai, pois deles é o reino dos céus.”



Escrito por Taprógoras às 21h47
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Odisséia



oi, então, que acordei.

 

A estória, na verdade, vai mais longe no passado. Faz um bom tempo já que as cores me abandonaram, que o caminho havia desaparecido e a banalidade havia se instalado de vez em meu coração. E mente aquele que diz que esse processo é gradual e indolor. Cada passo que dei na direção do cinza veio com fincadas dilacerantes e deixou um vergão profundo em minha alma. Como todo tatuador sabe muito bem: é mais doloroso tirar do que colocar a cor. Mas, de todo jeito, não sou totalmente uma vítima; eu sabia muito bem para onde estava indo, sabia o que estava deixando para trás. Mas eu não conseguia parar, não conseguia voltar...

 

Entretanto havia algo que me escapara em todo esse trajeto: a lição da serpente. Uma lição antiga que vira-e-mexe esquecemos: “para subir ao mais alto dos céus deves descer ao mais baixo dos abismos”. A escada para o Céu está embaixo do trono de Lúcifer, como aprendeu Dante.

 

Mas o melhor dessa lição é, de fato, a facilidade em esquecê-la, pois isso faz com que ela seja sempre uma lição prática, nunca apenas uma teoria.

Bom, isso tudo para justificar o fato de que eu a esqueci, pelo menos até o momento em que eu já ia fundo no abismo. Não que eu me arrependa de ter pulado, mas ainda me preocupo com as conseqüências do veneno da serpente (Mas isso é outra estória). O fato é que caí e a queda quebrou todos os meus ossos. Mas ainda estava consciente quando atingi o solo e pude ver com os olhos cheios d’água:

 

A estrada.

 

 

Antes de perder meus sentidos ainda pude ver com bastante clareza que ela havia mudado: não era mais a inocente estrada de terra rodeada por bosques verdejantes. Não. Era uma estrada de asfalto negro, rodeada de um descampado estéril com montanhas de neve eterna despontando no horizonte, junto a um fraco sol poente. Não pude conter as lágrimas que me verteram mesmo após o desmaio. Chorava em sonho, pois sabia que aquilo tudo era culpa minha.

 

Muito tempo se passou até abrir novamente meus olhos. Não conseguia me levantar ainda, mas tentei como pude procurar os meus velhos companheiros de viagem. Em vão. Não havia qualquer sinal do velhinho hindu. De relance, porém, pude ver a raposa vindo em minha direção. Não a reconheci de imediato, pois também havia mudado: não era mais o belo animal de porte orgulhoso e pêlo frondoso; estava mais para um animal de beira de estrada, vira-latas, assustado. O baque foi muito grande e desmaiei novamente. Não sei por quanto tempo eu dormi: dias, anos, séculos. Mas foi, então, que acordei.

 

A raposa ainda estava ali do meu lado, lambendo minha fronte em uma atitude tão domesticada que quase me fez sentir pena. Mas me contive – não podia fazer isso com ela. Aos poucos fui abrindo os olhos e me levantando (como podia, pois ainda tinha muitos ossos quebrados) e me fez mais triste perceber que não havia sonhado quanto a estrada: ela havia mudado.

 

Mas onde há desespero há também a esperança. Talvez arrastado por um guardião, talvez por pura ironia do destino, lá estava, à beira da estrada, uma selva intocada. Ok, não era o que se poderia chamar de “selva”, pois suas dimensões eram minúsculas, mas de algum jeito ela parecia resistir ao avanço da estrada. Ainda me arrastando, consegui entrar nela.

 

A raposa estava agitada – sua antiga ataraxia parece ter sido substituída por um medo humilhante (oh, minha amiga, me desculpe!) – seus olhos e orelhas reviravam o local e seu olfato já parecia ter sentido a fera. A fera.

 

Nas folhas ao longe pude perceber o terror amarelo. Sentia seus olhos felinos me analisando. Não sentia medo e fiz como pude para recuperar meus sentimentos. Mas o cinza havia me manchado com a apatia. A respiração da fera se tornava cada vez mais rápida, talvez estivesse ansiosa com seu jantar.

 

E, no fundo, meu coração se alegrava. Eu poderia ser devorado, mas eu tinha voltado à Estória.

 

Feche os olhos e conte até dez.



Escrito por Taprógoras às 18h18
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We are but stardust



 

Time takes care of the wound, so I can believe.
You had so much to give, you thought I couldn't see.
Gifts for boot heels to crush, promises deceived
I had to send it away to bring us back again.


Your eyes and body brighten silent waters, deep.
Your precious daughter in the other room, asleep.
A kiss "Goodnight" from every stranger that I meet.
I had to send it away to bring us back again.


Morning theft, and pretender left, ungrateful.
True Self is what brought you here, to me.
A place where we can accept this love.
Friendship battered down by useless history,
Unexamined failure.

What am I still to you?
Some thief who stole from you?
Or some fool drama queen whose chances were few?


Love brings us to who we need,
a place where we can save
A heart that beats as both siphon and reservoir.


You're a woman, I'm a calf.
You're a window, I'm a knife.
We come together making chance into starlight.


Meet me tomorrow night, or any day you want.
I have no right to wonder just how, or when.


And though the meaning fits, there's no relief in this.
I miss my beautiful friend.


I had to send it away to bring her back again.

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Eu já queria terminar o ano com essa música do Jeff Buckley (Morning Theft), mas qual não foi minha surpresa quando vi que eu tinha começado o ano com uma música dele também? Nada mais justo...

De certa forma as duas se completam (ou completam um ciclo, como quiserem), só não vou revelar como para não tirar a graça...

Um ótimo ano novo para todos!



Escrito por Taprógoras às 16h24
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Backbeat the word is on the street that the fire in your heart is out





Escrito por Taprógoras às 18h39
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Exercício #2 (Já que isso tá virando literalmente um diário mesmo...)

Hoje eu acordei triste. Claro, houve motivos, mas para esse texto nenhum deles é necessário. Acordei triste, e isso basta.

 

Triste, desanimado, mal-humorado, fisicamente fatigado. Até aí nada de muito novo no front. A diferença foi que, também hoje, resolvi fazer uma experiência. Ok, para ser mais sincero, o “resolvi” não está muito certo. Foi mais no sentido de que: também hoje, acabei fazendo uma experiência. Uma experiência que já pensava em fazer desde quando vi aquele filme “Old Boy” e pensei sobre aquele pequeno provérbio que vem logo no início:

 

Ria e o mundo ri com você.

Chore, e você chora sozinho

 

(Pequeno parêntesis, para quem interessar: parece que o “provérbio” vem de um poema chamado Solitude, de uma autora americana: Ella Wheeler Wilcox)

 

Não sei se cheguei a pensar conscientemente no provérbio, mas sei que comecei a colocá-lo em prática. E não foi nada muito esotérico não, no sentido de “se sentir bem” ou até mesmo “sorrir sempre”. Foi uma experiência bem física mesmo.

 

A primeira coisa que fiz foi, seguindo um exercício de um outro texto mais antigo (o qual eu também tinha escrito para mim mesmo), ficar em silêncio. Novamente, para ser completamente sincero, houve outros motivos que estavam por trás do meu silêncio, mas o que importa é que hoje eu consegui ficar bastante em silêncio.

 

A segunda coisa que fiz foi notar como estava meu rosto. E notei que ele estava bastante contraído: testa franzida, maxilar travado, olhos apertados. Então passei a cuidar de cada músculo da minha face em separado. E esse exercício eu mantive durante o dia quase todo, toda vez que eu lembrava.

 

O negócio é que deu certo. Com um rosto menos “fechado” e falando menos bobagens (que, muito provavelmente, seriam ainda ofensivas), o mundo pareceu sorrir para mim. Fui bem tratado até em lugares em que normalmente não sou, até por pessoas que normalmente não são legais comigo. E o tempo todo, sem qualquer esforço voltado senão para mim mesmo. Engraçado, não?

 

Mas alguém poderia fazer a pergunta inevitável: mas então sua tristeza acabou? E a resposta é: não. A tristeza continuou até o final do dia. Até ainda agora, enquanto escrevo este texto. Talvez continue até amanhã, ou mesmo depois. Mas esse não é o ponto.

 

Eu acordei triste, e isso bastou.



Escrito por Taprógoras às 23h50
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- Mas meu filho, por quê você bateu no seu coleguinha?

- Porque eu levantei meus ombros, fechei a mão, estiquei o braço e acertei ele bem no nariz.

- Meu filho, não te perguntei como você bateu nele, mas por quê?

- Porque o nariz dele até sangrou, daí ele ficou chorando no chão, chamando a ‘fessora e a mãe...

- Eu sei o que aconteceu meu filho, mas estou te perguntando por quê tudo isso aconteceu, qual foi a razão de você ter batido nele?

- Uai, porque eu quis.

- Mas, como assim? Por que você quis?

- Uai, porque eu ‘tava lá e eu podia: eu ‘tava bem, meus braços ‘tavam bem, minha mão ‘tava bem.

- Meu filho, eu não estou entendendo. E por quê você bateu naquele seu coleguinha?

- Uai, ele ‘tava lá. O rosto dele ‘tava lá. O nariz dele ‘tava lá.

- Mas, como? O que é que ele fez?

- O que ele fez? Uai, não sei..

- Como assim ‘não sabe’? O que é que ele fez contra você?

- Contra mim? Nada.

- Meu Deus! Nada!! Quer dizer que você bateu nele de graça?

- Não, de graça não mamãe. Depois que ele tava no chão ainda peguei o dinheiro que ele tinha levado para a merenda.

- Quer dizer que você bateu nele para roubá-lo?

- Não. Primeiro eu bati. Depois eu notei o dinheiro. Daí eu peguei. Ele tava no chão e não disse nada, só ficou chorando e chamando a mãe.

- Então você o agrediu de forma covarde?

- Não, eu não sou covarde mamãe. Eu fiquei de frente pra ele e disse: “Eu vou te bater”.

- Meu filho, o que está acontecendo com você? Alguém te machucou? Você está bravo com alguém?

- Não mamãe, ninguém me machucou e eu também num me machuquei. Minha mão quase não doeu. Eu também num ‘tô bravo não.

- Fala meu filho: é a mamãe? Você está bravo com a mamãe?

- Não mamãe, eu te amo.

- Então com quem?

- Co’ ninguém. Eu num costumo ficar bravo.

- Alguém te disse para fazer isso?

- Não, ninguém.

- Foi o seu pai? Ele te deixou ver aqueles filmes violentos que ele gosta?

- Não mamãe. Eu só gosto dos filmes da Disney.

- Meu Deus! Meu filho, o que está acontecendo com você?

- Não sei. Acho que ‘tô com fome. Posso tomar um sorvete?



Escrito por Taprógoras às 13h55
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Para quem tem medo do relativismo

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
 
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
 
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
 
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
 
 
– Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied.  It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Tá, eu não costumo fazer isso, mas dessa vez vou dar os créditos. 
O poema se chama One Art (um título realmente ótimo) 
e é de Elizabeth Bishop, uma poetisa norte-americana.
 
Leia como quiser: uma ironia ou uma esperança; ou (como eu mais gosto) as duas coisas.


Escrito por Taprógoras às 03h00
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Construindo o Desconstrutor

 

 

Hoje fui chamado de contraditório. Não que isso seja novidade: não foi a primeira vez e talvez nem seja a última. Mas dessa vez me fez pensar.

 

Normalmente as pessoas me chamam de contraditório quando, após possuírem uma imagem já assentada sobre mim, são de repente confrontadas com um outro lado meu, que é (segundo o seu entendimento) totalmente oposto àquele primeiro.

 

Dou exemplo: Como gosto muito de Nietzsche, certas pessoas logo me identificam como um nietzscheano (ou niilista, o que preferirem). Elas ficam satisfeitas com esse rótulo, o qual cria, como todo rótulo, uma boa sensação de explicação e estabilidade. Daí, conversa-vai-conversa-vem, descobrem que eu sou católico, que já li/leio a bíblia e que sou devoto a certos santos. Então é como se um mundo caísse abaixo: logo vem a expressão de decepção ou fascínio (dependendo se gostavam ou não da imagem anterior que tinham de mim), mas, sobretudo, de assombro.

 

E assim continua com as minhas demais facetas: um intelectualóide que é fascinado pelo trabalho manual e prático; um analista internacional que fez Direito sem gostar da matéria e um advogado que não vê motivo em uma análise internacional; um cara que consegue, ao mesmo tempo, trabalhar em um escritório de advocacia, cursar uma disciplina sobre estratégia/guerra e estudar a história/filosofia da ciência; um cara que se interessa por guerra e astrologia (muitas vezes ao mesmo tempo), política e contos de fada, religião e ceticismo, Schopenhauer e Saint-Exupery, pós-estruturalismo e realismo clássico, rock dos anos 70 e rap americano; um cara que fez duas monografias completamente diferentes em cursos de graduação não tão diferentes; um blasfemo carola; entre outras várias.

 

Recentemente, um dentista me disse que meu rosto é divido em dois, por duas vezes: o meu lado direito é extremamente diferente do esquerdo (não que eu já não soubesse disso) e o meu maxilar superior é de estrutura asiática (meu pai), enquanto meu maxilar inferior é ocidental (minha mãe). Um fisioterapeuta já tinha me dito que tenho uma pequena escoliose (desvio lateral da coluna) estrutural (não advinda de postura), o que deixa o lado direito do meu corpo diferente do esquerdo. Ah, e não, não sou um monstro (pelo menos da ultima vez que chequei).

 

Mas o ponto é que, quem me conhece sabe que, como meu corpo, não sou bom de escolher lados: não consigo me especializar. A verdade é que permanecer muito tempo em certo lugar me deixa extremamente incomodado – enjôo fácil de pessoas, de conversas, de textos, de modas, de estados, de matérias, de tudo. Quem realmente me conhece sabe que, apesar de falar como se conhecesse um milhão de autores e livros, na verdade são poucos os que consegui ler até o final.

 

Quando Nietzsche me colocou para escolher entre Dioniso e Apolo, fiquei com Hermes...

 

Talvez eu seja um otimista que enxerga pontes onde outros só vêem um abismo intransponível, ou talvez eu seja um incurável “do contra” que é contra, até mesmo, aquilo que é contra, ou talvez eu seja os dois. Não que seja fácil diferenciar entre um monge hindú e uma raposa, um rei e um dragão .

 

Escolha a imagem que quiser...



Escrito por Taprógoras às 19h18
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Ocaso



Co sent Rollant que la mort li est pres:
Par les oreilles fors s’e ist li cervel.
De ses pers priet Deu ques apelt,
E pois de lui a l’angle Gabriel.
Prist l’olifan, que reproce n’en ait,
E Durendal, s’espee, en l’altre main.
Plus qu’arcbaleste ne poet traire un quarrel,
Devers Espaigne en vait en un guaret;
Muntet sur un tertre; desuz dous arbres bels
Quatre perruns i ad, de marbre faiz;
Sur l’erbe verte si est caeit envers:
La s’est pasmet, kar la mort li est pres.

 

“Abre os olhos! O que você está fazendo?” – ela me perguntou, com aquele seu jeito único de falar alto.

“Contando nuvens...”

“Com os olhos fechados??”

 

É nessas horas que eu me arrependo de nunca ter me interessado pela matemática [I never learned to count my blessings, I choose instead to dwell in my disasters].

Ela encosta sua cabeça em meu peito, talvez procurando por aquela batida dos primeiros tempos. Meus pensamentos, em um turbilhão, se voltam para trás, como uma piracema de peixes nadando contra a corrente em uma busca frenética do passado [Esqueça o passado!]. Onde foi que eu o perdi?

 

Os gregos estavam certos, como sempre [Esqueça os gregos!!]. Seus deuses lhes falavam por meio dos poetas.

 

Por um breve instante, lembro de uma musiquinha que havia feito há muito tempo atrás, quando ainda acreditava em futuros holofotes. Uma letra pop inocente que na época não condizia com os meus sentimentos e que, acreditava eu, só havia surgido para combinar com uma melodia que não me saía da cabeça. Cheguei a criticar uma amiga à época, que insistia em gostar da música e me pedir para tocá-la no violão. “Sabe, essa música não é sobre amor; acabou ficando triste” (mas, no fundo, não ligava dela acreditar que a música tinha sido composta para ela). Os bastardos dos gregos estavam certos... [my fading voice sings of love, but she cries to the clicking of time]

 

No fundo eu sempre soube que seria assim, mas parte de mim ainda não acreditava que seria tão rápido. Eu devia ter aprendido a contar, ou, pelo menos, tido menos preconceito com os números. 1, 2, 3 e você está fora. Se ao menos eu tivesse contado, mesmo que tivesse sido nos dedos...

 

Eu já não devia mais ser tão orgulhoso (nem sei se essa frase está correta, já que atualmente até a gramática me foge). Dante dizia que o orgulho era o mais pesado dos pecados e, por isso, o mais perigoso. Tão perigoso que no final da montanha ele pode surgir novamente e te trazer de volta para baixo. Mas, tal como o poeta, eu também sabia que esse era o meu pecado preferido, é inútil ter aprendido a escalar [I never needed anybody’s help in any way].

 

Ela agora estava em cima de mim, me balançando. Sua juventude me machucava mais que os solavancos.

 

Por fim, ficou quieta. Levantou-se, virou de costas, e caminhou para longe. Eu não podia vencer a distância, quem pode?

“Não vá!” – gritei, sem nenhum som ser produzido em meus lábios.

Seus ouvidos devem ter escutado meus olhos.

“Faça uma música para mim”, disse com um sorriso cuja beleza amarrou minha garganta

[In such an ugly world, something so beautiful].

E desapareceu.

 

Como uma nuvem.

 



Escrito por Taprógoras às 15h13
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Underdogs



I guess you don't need it
I guess you don't want me to repeat it
But everything I have to give I'll give to you
It's not like we planned it
You tried to stay, but you could not stand it
To see me shut down slow
as though it was an easy thing to do
Listen when
All of this around us'll fall over
I tell you what we're gonna do
You will shelter me my love
And I will shelter you
I will shelter you
I left you heartbroken, but not until those very words were spoken
Has anybody ever made such a fool out of you
It's hard to believe it
Even as my eyes do see it
The very things that make you live are killing you
Listen when all of this around us'll fall over
I tell you what we're gonna do
You will shelter me my love
I will shelter you
Listen when
All of this around us'll fall over
I tell you what we're gonna do
Hey you will shelter me my love
I will shelter you
If you shelter me too
I will shelter you
I will shelter you



Escrito por Taprógoras às 12h58
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Exercício #1

Escute: você deve aprender a ficar calado!
Escute: você deve aprender a ficar...
Escute: você deve... aprender...
Escute: você deve...
Escute: você...
Escute........... 



Escrito por Taprógoras às 14h58
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Super-Homem

Salomé, Rée e Nietzsche em foto elaborada pelo Sr. Bigode aí da direita

"Garotos, como eu, sempre tão espertos
Perto de uma mulher,
São só garotos..."



Escrito por Taprógoras às 17h30
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Lost in translation – ou como ser lacônico em um mundo de tagarelas.

Cada vez mais tenho a impressão que o mundo moderno nos relegou a viver constantemente em um episódio de Lost.

Eu digo isso, pois, no seriado, quanto mais você (telespectador) recebe informações sobre a ilha e os personagens de lá, mais você fica perdido. Como uma espécie de algema chinesa, quanto mais se mexe, mais se fica preso.

E, sim, o mundo está assim.

Olhem esse incidente dos ingleses no Irã: Enquanto os iranianos assistem com a consciência limpa cenas dos militares ingleses jogando pingue-pongue, conversando e rindo durante sua prisão no Irã; os "ocidentais", por usa vez, são bombardeados com depoimentos alarmantes de torturas, maus tratos e barbarismo fanático. Quem fala a verdade? Muita informação e todo mundo perdido...

Na Inglaterra falam de uma pretensa conspiração governamental, em que os militares estariam ganhando meio milhão de libras para alegarem os maus tratos em sua prisão. Na televisão do Irã as cenas não mudam, são sempre as mesmas, podendo bem ter sido forjadas ou mesmo gravadas em momentos oportunos entre as torturas. Quem está certo??

Ora, qualquer fã de Lost que se preze pode responder essa pergunta: todos e ninguém ao mesmo tempo. Quem sabe mais? Os "passageiros" ou os "outros"? O "projeto Dharma" ou o restante de nós simples "mortais"?

No fundo, no fundo, temos medo da resposta mais plausível - de que ninguém sabe de nada e que ninguém está no controle de bosta nenhuma (nem mesmo os autores da série). Assim, alimentamos a esperança de que alguém tenha as respostas, mesmo que sejam os "outros"...

A Internet talvez tenha surgido dos sonhos molhados de algum iluminista setecentista, gozando ao som da palavra Liberdade.
Os "pais fundadores" talvez celebrariam o mundo de hoje como uma espécie de paraíso perdido, com suas livrarias abarrotadas de livros que saem fresquinhos da prensa, com seus mundos de cores e sons invadindo salas de estar de qualquer família de classe média (ou mesmo baixa), com suas enciclopédias digitais guardadas em bancos de dados gigantescos (que, com mágica alquímica, cabem na ponta dos dedos), e com sua informação à distância de um “clique”.

Mas os iluministas sempre comungaram na Igreja dos otimistas. Para eles, o copo sempre esteve metade cheio. E, com suas cabeças em utopias verdejantes, acabavam sempre por afundar suas nobres botas em boa e velha bosta de cavalo.

Aqui vale a lembrança dos românticos alemães, amargos em seus invernos frios e língua austera: o diabo joga com cartas divinas.

Ora, não foi à toa que, em um documentário sobre o Código da Vinci (o livro), assisti a um alarmado historiador demonstrar que, bombardeados pelo excesso de informações e verborragia de Dan Brown, os leitores do livro estavam esquecendo de utilizar o velho e simples silogismo. E, assim, era exatamente na melhor parte do livro que o autor os capturava como ovelhas seguindo para o matadouro. Qualquer mágico que se preze sabe que o ingrediente principal de qualquer truque é desviar a atenção de sua platéia...

Pois, com o tanto de comida que nos é disponível hoje (e mesmo empurrada em nossas goelas abaixo), resta-nos, como Nietzsche já havia previsto, a repugnante arte dos bovinos: ruminar. Digo repugnante para nossos paladares iluministas, regados a caviar e vinho do porto (que regurgitados sabem horríveis).

Por fim, os deixo com um conto de Esparta (que, como em toda história do ocidente, aparece para nos salvar de nós mesmos).

Dizem que uma vez um grupo de refugiados de Samos chegaram maltrapilhos e famintos às portas de Esparta. Procurando agir com a maior cortesia possível, dada suas condições, os miseráveis fizeram de tudo para corrigir seu porte e se dirigir ao rei e à assembléia dos espartanos.
Em tom quase épico, contaram tudo pelo que haviam passado: como haviam lutado contra a ascensão de um tirano, como haviam sido banidos, como haviam fugido e vivido uma verdadeira odisséia para atravessar o Egeu e chegar ao Peloponeso, e por ultimo como suplicavam por comida e ajuda para combater o odioso tirano. Ao final, esperavam ter conseguido tocar o coração dos duros espartanos, mas acabaram se deparando com olhares neutros. Um espartano chegou mais perto e disse-lhes: “Vocês falaram muito. O começo da história eu logo esqueci e, quanto ao final, eu não entendi, uma vez que tentava lembrar do começo.”
Desiludidos, os refugiados se retiraram. No dia seguinte, voltaram com um saco e disseram, resignados: “Este saco quer comida”. Prontamente, os espartanos o encheram com os mais variados víveres. Quando iam embora, o mesmo espartano do dia anterior aproximou-se e lhes disse: “Não precisavam ter dito ‘este saco’. ‘Quer comida’ já bastava”.


Pensar é estar doente dos olhos...

Escrito por Taprógoras às 23h28
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Men's Odissey




Looking out the door i see the rain fall upon the funeral mourners
Parading in a wake of sad relations as their shoes fill up with water
And maybe i'm too young to keep good love from going wrong
But tonight you're on my mind so you never know

When i'm broken down and hungry for your love with no way to feed it
Where are you tonight, child you know how much i need it
Too young to hold on and too old to just break free and run

Sometimes a man gets carried away, when he feels like he should be having his fun
And much too blind to see the damage he's done
Sometimes a man must awake to find that really, he has no-one

So i'll wait for you... and i'll burn
Will I ever see your sweet return
Oh will I ever learn

Oh lover, you should've come over
'Cause it's not too late

Lonely is the room, the bed is made, the open window lets the rain in
Burning in the corner is the only one who dreams he had you with him
My body turns and yearns for a sleep that will never come

It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles when i slept so soft against her
It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever

Well maybe i'm just too young
To keep good love from going wrong

Oh... lover, you should've come over
'Cause it's not too late

Well I feel too young to hold on
And i'm much too old to break free and run
Too deaf, dumb, and blind to see the damage i've done
Sweet lover, you should've come over
Oh, love well i'm waiting for you

Lover, you should've come over
'Cause it's not too late



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Começando mais um ano.

A música é "Lover You Should've Come Over" - Jeff Buckley

Escrito por Taprógoras às 19h51
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